Entusiasta, mas sem qualificação nos Serviços Assistidos com Equinos

Nos Serviços Assistidos com Equinos (SAE), encontro frequentemente pessoas bondosas, generosas e genuinamente motivadas para ajudar. Gostam de equinos, preocupam-se com os outros e querem criar algo com significado. Este entusiasmo é valioso e nunca deve ser desvalorizado.

Em muitos locais, foi precisamente este espírito que permitiu dar início a estes serviços. Alguns centros nasceram graças à dedicação, ao trabalho voluntário e à iniciativa de pessoas que decidiram avançar quando os apoios disponíveis eram escassos. As comunidades beneficiaram porque houve alguém que se preocupou o suficiente para dar o primeiro passo. Isso merece reconhecimento.

Ao mesmo tempo, à medida que a nossa área se desenvolve, torna-se importante abordar outra questão.

As boas intenções e o entusiasmo são bases valiosas, mas não equivalem a qualificações.

Hoje, sabemos muito mais sobre segurança, proteção dos participantes, equinos, limites de atuação profissional, gestão de riscos, efeitos dos Serviços Assistidos com Equinos nos clientes e indicações e contraindicações adequadas à prática do que sabíamos há alguns anos. À medida que o conhecimento aumenta, aumenta também a responsabilidade.

Muitas pessoas começam por prestar apoio em tarefas práticas. Ajudam nas instalações equestres, apoiam as sessões, incentivam os clientes ou disponibilizam o seu equino, calmo e de confiança, para as atividades. Com o tempo, graças ao seu empenho e ao reconhecimento do seu contributo, as suas responsabilidades podem aumentar gradualmente. Por vezes, sem que ninguém se aperceba claramente, acabam por assumir funções que exigem uma formação que nunca receberam.

As boas intenções e o entusiasmo são bases valiosas, mas não equivalem a qualificações.

Nem sempre a responsabilidade é do próprio indivíduo.

A responsabilidade cabe também aos centros, às organizações e aos prestadores de serviços. Quando os orçamentos são limitados, é difícil encontrar profissionais qualificados ou a procura está a aumentar, pode surgir a tentação de confiar na boa vontade em vez de nas competências. Pode pedir-se cada vez mais aos voluntários. Os limites das funções podem tornar-se pouco claros. Os padrões de qualidade podem baixar gradualmente, sem que ninguém tenha essa intenção.

Mas a necessidade não gera automaticamente competência. E a bondade, por si só, não evita que se causem danos.

Nos Serviços Assistidos com Equinos, trabalhamos frequentemente com pessoas que podem apresentar vulnerabilidade física, sensibilidade emocional, condições neurológicas complexas ou dificuldades em comunicar claramente o seu desconforto. Pequenos erros podem ter consequências maiores do que imaginamos. Por vezes, os danos são visíveis. Outras vezes, são subtis e acumulam-se ao longo do tempo.

Uma pessoa atenciosa pode não reconhecer sinais de alerta importantes.

Um assistente de confiança pode aplicar técnicas de manuseamento inadequadas.

Um proprietário de equinos, mesmo com as melhores intenções, pode atuar para além dos limites das suas competências.

Um centro com valores humanos sólidos pode, ainda assim, funcionar abaixo dos padrões de segurança exigidos.

Os equinos também são afetados. Decisões inadequadas, orientações pouco claras no seu manuseamento, expectativas irrealistas ou um treino inconsistente podem influenciar o seu bem-estar e, consequentemente, a segurança de todos os envolvidos.

É por isso que o entusiasmo precisa de orientação.

Para os prestadores de serviços independentes que trabalham nas suas próprias instalações, este desafio pode ser particularmente difícil. Sem colegas, supervisão ou avaliação externa, é fácil presumir que aquilo que parece certo está necessariamente correto. Para os voluntários que colaboram com organizações, pode ser difícil dizer que não quando é necessária ajuda.

É aqui que a reflexão se torna essencial: «Onde começam as minhas competências? Onde terminam? Para que partes deste trabalho estou realmente preparado? Em que momento deve outro profissional assumir a responsabilidade? Estou verdadeiramente a ajudar ou poderei, involuntariamente, estar a causar danos?» Estas são questões profissionais que todos devemos colocar a nós próprios regularmente.

A boa notícia é que o entusiasmo pode ser o início de um percurso profissional. Muitas pessoas apaixonadas por esta área tornam-se excelentes profissionais quando decidem continuar a aprender, procurar supervisão e compreender os seus próprios limites.

A formação não diminui a bondade. A qualificação não substitui a dedicação. Uma boa formação dá à paixão uma orientação mais segura e eficaz.

Por vezes, a frase mais profissional que alguém pode dizer é: «Gostaria muito de ajudar, mas esta parte ultrapassa os limites das minhas competências.» Isso não é uma fraqueza. É maturidade.

O meu desejo para a nossa área é que as pessoas escolham evoluir através da aprendizagem, de limites de atuação mais claros, de padrões profissionais mais exigentes e do trabalho em equipa. Porque, se queremos que os Serviços Assistidos com Equinos sejam reconhecidos, eficazes, seguros e sustentáveis, precisamos de competências à altura da nossa paixão.


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Vera’s EAS Lens é um espaço onde partilho as minhas reflexões profissionais, o meu raciocínio clínico e a minha experiência internacional em Terapia e Serviços Assistidos com Equinos. Com base em muitos anos de prática clínica, formação e colaboração entre países e disciplinas, analiso os SAE através de uma perspetiva especializada, crítica e ética.

Este blogue destina-se a profissionais, estudantes e organizações que desejam compreender os SAE para além das tendências e do entusiasmo, fundamentando o seu trabalho na qualidade, na responsabilidade e numa prática com significado.

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Věra Lantelme-Faisan
Věra Lantelme-Faisan is a physiotherapist and international educator specialising in Equine Assisted Therapy. She is the President of HETI – the Federation of Horses in Education and Therapy International – and Chair of Svítání Academy of Equine Assisted Services. With more than twenty years of clinical and teaching experience, she works internationally to support education, professional development, and collaboration in the field of Equine Assisted Services.

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